Ondas de calor confundem o cérebro: o que a ciência ainda não explicou
Na última semana, Londres registrou 36,1 °C, temperatura inédita para o mês de junho. O termômetro subiu tanto que o aplicativo de clima indicou sensação de quase 39 °C. Esse calor intenso não afeta só a pele; ele mexe com a nossa cabeça.
Calor e comportamento
Vários estudos apontam que, à medida que o termômetro sobe, a irritabilidade e a agressividade tendem a aumentar. Contudo, a maioria das pesquisas se baseia em correlações estatísticas, sem observar diretamente o cérebro em ação.
Experimentos com bombeiros
A psicóloga cognitiva Catherine Thompson, da Liverpool Hope University, encontrou um atalho: analisar bombeiros em treinamento. Eles entram em ambientes controlados de alta temperatura e, após 15 minutos de exposição, mostram queda na atenção e no controle cognitivo. Uma pausa de cerca de 20 minutos em clima mais fresco costuma restaurar o desempenho.
O que ainda falta entender é o efeito de ondas de calor que duram dias. Thompson suspeita que a logística de testar milhares de pessoas em tempo real seja o grande obstáculo.
Vulnerabilidade de quem tem transtornos mentais
Joshua Wortzel, do Heat‑Mind Lab em Connecticut, destaca que o risco aumenta nas fases mais quentes do ano. Uma revisão de 2023 liderada por Emma Lawrence, da Universidade de Oxford, encontrou 9,7 % a mais de internações hospitalares por problemas de saúde mental durante ondas de calor.
Casos extremos reforçam a preocupação: na onda de calor de 2021 no Canadá, pacientes com esquizofrenia tiveram risco de morte três vezes maior que a média.
O que acontece no cérebro?
Em modelos animais, temperaturas elevadas alteram a química cerebral. Estudos mostram aumento de neurotransmissores como a serotonina em ratos expostos ao calor intenso. Ainda não está claro se o mesmo mecanismo ocorre em humanos, mas a hipótese ganha força.
Além das mudanças químicas, o calor interfere no sono, na prática de exercícios e nas interações sociais – pilares essenciais para a saúde mental.
“A grande questão, o que chamamos de ‘milhão‑dólar question’, é se o calor extremo provoca algo específico no cérebro ou se os efeitos são indiretos, via sono, atividade física e isolamento.” – Joshua Wortzel
Enquanto a ciência ainda busca respostas, a recomendação prática permanece: buscar sombra, hidratar-se, e, se possível, reduzir atividades mentais exigentes durante os picos de temperatura.
