IA e Poder: A Encíclica do Papa Leão XIV na Era Digital
A encíclica ‘Magnifica Humanitas’, assinada pelo Papa Leão XIV, não trata a inteligência artificial como uma tecnologia qualquer. Ela a posiciona como parte da infraestrutura invisível que molda nosso cotidiano. Longe de ser um texto técnico, a encíclica contextualiza a IA dentro da doutrina social católica, fazendo um paralelo com a ‘Rerum Novarum’ de Leão XIII, que abordou as questões trabalhistas na Revolução Industrial.
O Poder Concentrado da IA
Se antes as ‘res novae’ eram fábricas e o capitalismo industrial, hoje são plataformas digitais, algoritmos e automação. A encíclica observa que a humanidade nunca teve tanto poder sobre si mesma, com tecnologias que influenciam decisões, o imaginário coletivo e a vida social de forma invasiva. O ponto central é a crescente concentração de poder através de sistemas opacos, mas decisivos. A questão levantada é: o que resta da dignidade humana, da verdade, do trabalho e da justiça social quando decisões são delegadas à lógica algorítmica?
Desarmando a Tecnologia
A expressão ‘desarmar a tecnologia’ é chave. Não se trata de frear o desenvolvimento da IA, mas de prevenir que ela se torne uma forma de poder que domine a existência humana.
Para Leão XIV, o problema não é a tecnologia em si, mas sua organização e aplicação. A IA é vista como parte de uma corrida global pelo ‘algoritmo mais potente’ e pelo ‘maior data center’, onde a vantagem competitiva se torna geopolítica. Nesse cenário, poucos players concentram infraestrutura digital, dados e capacidade computacional, impactando informação, economia e até a democracia.
Desarmar significa quebrar a equação entre poder técnico e o direito de governar. A encíclica afirma que a IA tende a aumentar o poder de quem já possui recursos econômicos e acesso a dados. Não basta regular; é preciso tirar a tecnologia dos monopólios, torná-la transparente e aberta ao questionamento, ou seja, ‘habitável’ por uma pluralidade de atores. A IA não pode ser instrumento de dominação econômica, política ou militar por poucos. É um chamado para que a lógica da competição não transforme uma infraestrutura compartilhada em um sistema de controle.
A Verdade nos Sistemas que Selecionam a Realidade
A concentração de poder tecnológico afeta a formação da verdade coletiva. A encíclica aborda a desinformação de forma profunda: a realidade percebida é filtrada por sistemas que decidem o que mostrar e o que esconder. Não é só sobre fake news, mas sobre plataformas e algoritmos que selecionam informações para maximizar atenção e engajamento. O que se torna visível não é necessariamente o mais verdadeiro, mas o que gera mais reações.
A verdade não desaparece, mas se torna dependente de sistemas opacos que influenciam opiniões e escolhas coletivas sem clareza. Por isso, a encíclica insiste na responsabilidade cultural e educacional: formar pessoas capazes de reconhecer esses mecanismos e não confiar a construção do julgamento público apenas a infraestruturas digitais que respondem a lógicas de mercado ou poder.
O Trabalho como Linha de Falha
A mesma dinâmica se repete no mundo do trabalho. A IA não é apenas automação, mas uma força que redefine quem trabalha, como e com quem. Este é um dos pontos mais concretos da encíclica.
Fonte: https://www.wired.com/story/what-pope-leo-xivs-first-encyclical-says-about-the-power-of-ai/


