Tem uma cena que parece tirada de roteiro de filme de espionagem: o governo americano acusa uma empresa de IA de guardar um botão secreto capaz de desligar seus próprios modelos no meio de uma operação militar. Só que, segundo a Justiça, essa cena não passa disso: roteiro sem prova nenhuma.
Numa audiência realizada na quinta-feira, a juíza federal Rita Lin disse que o governo Trump ainda não apresentou evidências suficientes para justificar o rótulo de ‘risco à cadeia de suprimentos’ colado na Anthropic, criadora do Claude. Esse selo, na prática, funciona como uma espécie de score negativo que impede órgãos federais de contratar a tecnologia da empresa.
O imbróglio nasceu de negociações travadas entre a Anthropic e o Departamento de Defesa. A empresa afirma que não quer ver sua IA usada para vigilância em massa de cidadãos americanos, nem para decisões de disparo envolvendo armas letais, alegando que a tecnologia simplesmente não está madura para esse tipo de uso. O Pentágono rebateu dizendo que nenhuma empresa privada deveria ditar como as forças armadas usam suas ferramentas, prometendo emprego apenas dentro de limites legais.
Aqui entra o ponto que mais chamou atenção na audiência: o governo também argumentou que as críticas públicas da Anthropic ao Departamento de Defesa justificariam a proibição. A juíza classificou essa lógica como ‘realmente preocupante’, alertando que abriria um precedente perigoso, quase um manual de retaliação contra qualquer fornecedor federal que ousasse discordar publicamente do governo.
Não existe prova de que a Anthropic possa alterar um modelo já entregue ou ‘apertar algum tipo de botão de desligamento’, afirmou a juíza Rita Lin.
Essa frase resume bem o segundo pilar da defesa do Pentágono, que alegava risco de sabotagem remota durante operações de guerra. Especialistas já vinham apontando que essa hipótese carecia de sustentação técnica, e a juíza concordou, tratando a ideia mais como ficção especulativa do que como ameaça real de segurança nacional.
O caso é um dos dois processos que a Anthropic abriu contra o Departamento de Defesa em março, contestando tanto a proibição quanto a própria classificação de risco. O outro segue tramitando em Washington. Lin, que já havia bloqueado temporariamente a proibição naquele mês, agora avalia se transforma essa decisão em algo permanente.
Vale acompanhar esse desenrolar de perto: decisões assim tendem a moldar como o governo americano vai lidar, daqui pra frente, com empresas de IA que discordam abertamente das políticas de defesa.