IPO da Cerebras: O Jogo de Múltiplos e a Sombra da OpenAI
A longa espera pelo IPO da Cerebras Sistemas finalmente se aproxima do fim. A empresa de chips focados em inteligência artificial anunciou sua intenção de comercializar 28 milhões de ações, com uma faixa de preço entre US$ 115 e US$ 125. Na cotação máxima, isso injetaria US$ 3,5 bilhões nos cofres da companhia, elevando seu valor de mercado para impressionantes US$ 26,6 bilhões.
Observando os números, tal movimento representa um salto notável em poucos meses. Investidores da rodada Série H, que em fevereiro aportaram US$ 1 bilhão a uma avaliação de US$ 23 bilhões, já vislumbram um retorno considerável. Esta seria, sem dúvida, a maior oferta pública inicial de tecnologia de 2026 até agora, potencialmente pavimentando o caminho para outros gigantes como SpaceX e, quem sabe, a própria OpenAI ou Anthropic. Mas, como sempre, a pergunta é: quem realmente lucra com essa valorização acelerada?
A Teia de Interesses com a OpenAI
A Cerebras apresenta seu chip, o Wafer-Scale Engine 3, como um competidor robusto às GPUs tradicionais para tarefas de inferência de IA, prometendo maior velocidade e menor consumo energético. Uma proposta técnica interessante, mas a dinâmica de capital por trás dessa oferta é ainda mais intrigante. Uma lista extensa de investidores de peso está posicionada para colher os frutos, incluindo Alpha Wave, Benchmark, Eclipse, Fidelity e Foundation Capital, todos com participações superiores a 5%.
Entretanto, a relação com a OpenAI merece um escrutínio mais detalhado. Embora Sam Altman, CEO da OpenAI, e outros executivos da empresa figurem apenas como “investidores anjo” — com participações modestas demais para serem detalhadas em registros públicos —, a conexão vai muito além. Documentos legais, inclusive os citados no processo de Elon Musk contra a OpenAI, revelam que a OpenAI chegou a considerar uma aquisição da Cerebras no passado. O negócio não se concretizou, mas a OpenAI tornou-se um de seus maiores clientes.
O ponto central: em dezembro, a OpenAI concedeu um empréstimo de US$ 1 bilhão à Cerebras, garantido por warrants que permitirão à OpenAI adquirir mais de 33 milhões de ações. Ou seja, a OpenAI, hoje não uma grande acionista, tem a opção de se tornar uma, e com um custo de entrada pré-determinado. Soma-se a isso um contrato plurianual avaliado em mais de US$ 10 bilhões assinado em janeiro para fornecimento de capacidade de processamento. Claramente, os interesses estão entrelaçados, e os ganhos potenciais para a OpenAI e seus principais nomes são múltiplos.
Essa não é a primeira tentativa da Cerebras de ir a público. Em 2024, planos foram adiados por uma revisão federal de um investimento da G42, um provedor de nuvem de Abu Dhabi. Em setembro do ano passado, a empresa buscou mais capital, levantando US$ 1,1 bilhão na Série G a uma avaliação pós-dinheiro de US$ 8,1 bilhões. Poucos meses depois, veio o acordo com a OpenAI e, em fevereiro, a Série H de US$ 1 bilhão, avaliando a empresa em US$ 23 bilhões. Uma corrida contra o tempo para capitalizar no hype da IA?
A demanda pelo IPO sugere que o mercado está faminto por narrativas de IA. Relatos indicam que bancos já registraram pedidos de US$ 10 bilhões em ações, para uma oferta inicial de US$ 3,5 bilhões. Esse tipo de demanda costuma inflacionar o preço final das ações acima da faixa anunciada, gerando ainda mais capital para a empresa e valorização extra para seus investidores. Resta ver se essa euforia inicial se sustenta no longo prazo ou se estamos apenas testemunhando mais um capítulo da montanha-russa dos múltiplos do setor.
Fonte: https://techcrunch.com/2026/05/04/openais-cozy-partner-cerebras-is-on-track-for-a-blockbuster-ipo/


