Inteligência Artificial

IA secreta da Anthropic avança no maior enigma da matemática

· por Lia Andrade

Tem problema que resiste ao tempo como rocha resiste à erosão. A Hipótese de Riemann é assim: formulada há mais de 150 anos, ela tenta explicar a lógica escondida por trás da distribuição dos números primos. Ninguém provou. Ninguém refutou. E o Clay Mathematics Institute mantém uma recompensa de US$ 1 milhão esperando alguém corajoso o suficiente.

Pois um modelo ainda não lançado pela Anthropic entrou nessa arena e, mesmo sem fechar a prova completa, empurrou o limite inferior das soluções conhecidas para bem mais longe do que se imaginava possível hoje.

Uma tarefa jogada, não desenhada

O detalhe mais curioso não é o resultado, é o processo. Um funcionário da empresa, sem formação avançada em matemática, simplesmente pediu ao modelo para dar uma cutucada séria no problema. Depois, saiu de cena e deixou a coordenação por conta própria durante um dia e meio inteiro.

Nesse intervalo, o sistema funcionou como uma pequena equipe de pesquisa distribuída entre si mesmo: testou 650 abordagens diferentes, orquestrando 60 subagentes e mobilizando algo em torno de 31 milhões em recursos computacionais.

  • 2 subagentes desenvolveram as ideias matemáticas centrais
  • 13 contribuíram com sugestões para esses dois
  • 30 tentaram criar caminhos novos e não conseguiram
  • 13 atuaram como revisores, checando a validade dos argumentos
  • 2 redigiram o rascunho inicial do artigo científico

É quase uma linha de montagem cognitiva, com papéis especializados surgindo sem que ninguém tenha programado essa divisão explicitamente. Dois matemáticos da própria Anthropic confirmaram o achado, e a formalização passou pelo assistente de prova Lean, ferramenta de código aberto usada para verificar raciocínios matemáticos passo a passo.

Parte de uma onda maior

Esse não é um caso isolado. Ao longo do ano, modelos de linguagem já resolveram problemas de Erdos, a OpenAI divulgou dez resultados matemáticos relevantes obtidos por seu modelo interno Astra, e outro time da Anthropic derrubou a conjectura Jacobiana, que também resistia há décadas.

Esse acúmulo de vitórias gerou tanto entusiasmo quanto desconforto. Em junho, um grupo de matemáticos assinou a Declaração de Leiden alertando que provas geradas por IA podem esvaziar um valor central do campo: a ideia de que um teorema pertence a um autor identificável, responsável por sua correção.

Nem todo mundo vê isso como ameaça. O medalhista Fields Timothy Gowers respondeu com outra perspectiva:

Se chegarmos a um mundo em que teoremas matemáticos não estejam mais associados a matemáticos, talvez isso não seja mais problemático do que o fato de estrelas não terem nomes de astrônomos, e a maioria não ter nome nenhum.

Vale pensar nisso como um telescópio novo apontado para o céu: ele não faz o trabalho do astrônomo desaparecer, só muda o que dá para ver primeiro.

Fonte: https://techcrunch.com/2026/08/11/an-unreleased-anthropic-model-made-progress-on-one-of-maths-biggest-unsolved-problems/