Tecnologia

Ulanqab: a cidade mongol que virou motor de data centers de IA

· por Pedro Antunes

TECNOLOGIA

Se você quer entender onde a China está realmente colocando dinheiro em IA, esquece Pequim e Shenzhen. Olha pro mapa e procura Ulanqab, uma cidade de 1,5 milhão de habitantes na Mongólia Interior, terra historicamente de ovelha e carvão. Desde 2016, quase 100 data centers já foram abertos ou entraram em obra por ali.

Os números batem forte. As empresas chinesas já comprometeram capacidade combinada de 12,5 gigawatts na cidade, sendo que mais de 70% desse volume foi anunciado só no último ano. Pra dar escala: o Stargate, projeto de 500 bilhões de dólares da OpenAI, deve chegar a 10 gigawatts quando estiver completo. Ulanqab, sozinha, já supera isso.

A conta de infraestrutura fecha por três motivos

  • Altitude alta e inverno rigoroso cortam o gasto com refrigeração dos servidores
  • Proximidade com Pequim mantém a latência baixa pra transmissão de dados
  • Eletricidade mais barata que o resto do país, misturando eólica, solar e carvão

O detalhe que chama atenção é quem está pagando a conta. Pela primeira vez, empresas chinesas de IA estão investindo pesado em infraestrutura própria em vez de alugar nuvem de terceiros. DeepSeek, ByteDance, Alibaba e Xiaohongshu aparecem entre as que estão erguendo data centers próprios na região, encurtando uma diferença histórica com as rivais americanas, que sempre gastaram muito mais em hardware físico.

O gargalo não é energia, é água

Ulanqab recebe cerca de 14 polegadas de chuva por ano, um clima seco parecido com o de Denver. O sistema de abastecimento local já dá sinal de estresse: no mês passado, a companhia de água precisou desligar estações de tratamento por sete horas seguidas, todas as noites, pra segurar o pico de consumo. Os data centers consomem menos água no inverno, precisando de reforço de refrigeração em apenas dois meses do ano, mas o volume de obras planejadas pode virar um problema ambiental real pra região.

De estoque frio a treinamento de modelo

A Huawei abriu o primeiro data center ali em 2016, a Apple seguiu em 2019, e em 2021 o governo incluiu a área no programa nacional que leva processamento pro interior do país. No começo, a distância dos grandes centros urbanos limitava esses servidores a armazenamento de backup. Isso mudou com o boom de IA em 2022: treinamento de modelo roda por meses e tolera mais atraso, então a localização deixou de ser empecilho.

Com a ascensão da IA em 2022, ficou claro que aqueles data centers remotos podiam ser bem aproveitados para treinamento de modelos, segundo Andrew Stokols, professor da Singapore Management University que estuda a infraestrutura de computação chinesa.

Dois cabos de fibra óptica dedicados, construídos em 2017 e 2019, baixaram a latência média para menos de 5 milissegundos, suficiente até para inferência em tempo real. Ou seja, deu pra rodar não só treinamento, mas também as respostas ao vivo dos modelos. Crescimento puxado pela demanda comercial de startups como DeepSeek e Moonshot AI, não só por decreto de governo, o que explica a velocidade do negócio.

Fonte: https://www.wired.com/story/the-unlikely-place-at-the-center-of-chinas-ai-boom/