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Ratos perdem metade das sinapses na hibernação, mas memória sobrevive

· por Rafa Tanaka

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Imagina apagar mais da metade dos arquivos de um computador e, ainda assim, o sistema continuar lembrando de tudo. Foi basicamente isso que um grupo de neurocientistas viu acontecer no cérebro de camundongos depois de um cochilo bem mais radical que o normal: a hibernação induzida.

Como funciona esse modo hibernação artificial

O estudo, publicado na revista Science e liderado por pesquisadores do Okinawa Institute of Science and Technology e da University of Tsukuba, usou uma técnica chamada QIH, que ativa um circuito no hipotálamo dos ratos e simula um estado parecido com o de animais que hibernam de verdade, tipo ursos e esquilos.

A temperatura corporal dos bichos caiu para cerca de 20°C, coração e respiração desaceleraram bastante, e depois de 48 horas nesse estado eles voltaram ao normal. Nada muito diferente de apertar o botão de suspender em um notebook.

O detalhe que ninguém esperava

Só que durante essas 48 horas, o cérebro dos ratos passou por uma faxina e tanto: mais da metade das sinapses, as conexões que os neurônios usam pra trocar informação, simplesmente desapareceram. Em teoria, isso deveria ter zerado boa parte das memórias armazenadas ali.

  • Atividade neural caiu cerca de 70% durante a hibernação
  • Imagens de microscopia mostraram perda de mais de 50% das sinapses no hipocampo
  • Depois de acordar, os ratos foram testados em duas tarefas de memória e tiveram o mesmo desempenho de antes
  • 82% das sinapses que voltaram reapareceram exatamente no mesmo ponto do dendrito onde estavam antes

Ou seja: apagou o cache, mas o arquivo salvo continuou intacto. Os próprios pesquisadores ficaram surpresos com isso.

Se você aceita que os traços de memória ficam guardados na eficácia de cada sinapse individual, perder mais da metade das conexões deveria prejudicar a lembrança depois. Mas não foi isso que encontramos, explica Kazumasa Tanaka, um dos autores do estudo.

O time confirmou que a memória realmente mora no hipocampo: quando causaram uma lesão nessa região depois do treino, os ratos esqueceram tudo. Só que quando o esquecimento veio da hibernação, e não de um dano físico, a lembrança sobreviveu.

Por que isso interessa além do laboratório

Esse achado bagunça a ideia mais simples de que memória é só sinapse forte igual lembrança guardada. Parece existir algum tipo de backup, um padrão que sobrevive mesmo quando a estrutura física que sustentava aquela memória é destruída e reconstruída praticamente do zero.

Ainda são ratos em laboratório, longe de qualquer aplicação em humanos. Mas entender esse mecanismo pode ajudar a explicar por que memórias resistem a lesões cerebrais, anestesias profundas ou quadros de hibernação médica usados em cirurgias delicadas. Se o cérebro tem um jeito de reconstruir conexões no lugar certo depois de um reset tão drástico, vale a pena mapear esse processo.

Fonte: https://arstechnica.com/science/2026/08/memories-stick-around-even-after-half-the-synapses-are-gone/