Tinha uma expectativa clara por trás dessa reportagem: adultos acham que sabem exatamente como a garotada usa inteligência artificial. Cola em prova, ferramenta mágica, obsessão digital. A realidade, apurada em conversas com jovens de 10 a 18 anos, é bem mais parecida com aquele momento em que você pergunta a alguém sobre um assunto e recebe de volta um “meh” olímpico.
Olha que interessante: boa parte dos entrevistados trata IA generativa com o mesmo entusiasmo que reservaria para preencher uma planilha de impostos. Um adolescente de 17 anos, identificado como Winter, resumiu o receio geral com uma frase direta: ele teme que a tecnologia vire
o fim da criatividade e do pensamento crítico
em vez de solução para qualquer problema.
Os números batem com o clima
Isso não é só sensação de quem entrevistou. Um levantamento do Pew Research Center, de fevereiro de 2026, mostra o quadro em números: 57% dos adolescentes americanos já usaram chatbots para pesquisar informação, 54% recorreram a eles em tarefas escolares e 47% simplesmente para se divertir. Só 12% buscaram apoio emocional na ferramenta. Ou seja, o uso mais comum é instrumental, tipo usar calculadora, e não uma dependência afetiva como às vezes se imagina.
Tem também quem já enxergue a tecnologia com olhos de engenheiro. Remy, 16 anos, programador amador em Nova York, compara o momento atual da IA a algo bem concreto:
é como o primeiro carro ou o primeiro avião. Interessante, mas ainda cru. Uma invenção incrível, só que ainda não boa de verdade
. Ele prefere escrever o próprio código a corrigir o que um modelo generativo produz, porque, segundo ele, a IA ainda entrega soluções desorganizadas para problemas de lógica mais complexos.
Menos medo do emprego, mais medo da sociedade
Um ponto que chamou atenção dos pesquisadores: esses jovens não estão tão preocupados em perder oportunidades de trabalho para algoritmos no futuro. O receio maior é sobre o efeito coletivo, no jeito como as pessoas vão pensar, criar e se relacionar daqui a alguns anos.
- A maioria já usou IA pelo menos uma vez, mesmo sem entusiasmo declarado
- Escolas e famílias costumam ser a porta de entrada, não o desejo espontâneo da criança
- Casos de uso criativo aparecem, como treinar modelos simples em motores de jogos
- A preocupação central é social e cognitiva, não apenas o emprego
No fim, a lição que fica é bem prática: assim como não se ensina um adolescente a nunca dirigir, também não faz sentido blindar completamente a garotada da IA. O caminho, pelo visto, é ensinar a checar o retrovisor antes de acelerar.
Fonte: https://www.technologyreview.com/2026/08/13/1141410/how-kids-feel-about-ai-own-words/
