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Calor recorde neste verão: por que 2027 pode ser ainda mais quente

· por Lia Andrade

Olha que coisa interessante: o verão de 2026 castigou o Hemisfério Norte com uma sequência de recordes que parece roteiro de filme catastrófico, mas é dado duro. Junho e julho formaram o par de meses mais quentes já registrado na Europa, os Estados Unidos continentais viveram o julho mais escaldante da história e a Coreia do Sul bateu sua marca térmica mais alta de todos os tempos.

O que intriga os cientistas não é só o presente, e sim o que vem depois. Especialistas apontam que o El Niño já em curso vai pesar mais no termômetro de 2027 do que neste ano. O fenômeno funciona como uma poupança de calor no Pacífico: a água acumula energia solar por meses e, quando as condições mudam, libera esse estoque para a atmosfera com atraso natural.

A física por trás do forno global

O nome técnico é El Niño-Oscilação Sul, um vaivém entre ventos e correntes que alterna fases mais frias e mais quentes. Em condições normais, os ventos alísios empurram a água morna para o oeste do Pacífico, abrindo espaço para água fria subir no leste. Quando o El Niño entra em cena, esses ventos perdem força, o calor represado no Pacífico central sobe à superfície e desorganiza padrões de chuva no planeta inteiro.

O El Niño não cria energia nova, apenas redistribui o que já estava guardado. O problema é que a mudança climática enche essa poupança todos os dias, então a soma dos dois efeitos pode ser bem mais dura do que qualquer um isolado.

Por que a Europa aquece mais rápido

Um estudo de atribuição climática analisou a onda de calor de maio e concluiu que um evento parecido em 1976 teria sido cerca de 3,5°C mais frio nas condições daquela época. A Europa, aliás, é o continente que esquenta mais rápido no planeta, atrás apenas do Ártico, o que ajuda a explicar a violência do verão por lá.

Nos EUA, o recorde de julho quebrou uma marca que resistia desde 1936, ano do Dust Bowl, o desastre ambiental que arrasou a agricultura americana na época. Bater um número daquele período é, no mínimo, um sinal de alerta.

O que esperar de 2027

O climatologista Zeke Hausfather descreve este El Niño como um dos que se formaram mais rápido já registrados, com projeções apontando pico acima de 3,5°C sobre a média, o que poderia torná-lo o mais forte já medido. Historicamente, o efeito do El Niño sobre a temperatura global aparece com meses de atraso e fica mais forte no segundo ano do evento. Foi assim em 2023-2024: o El Niño começou em 2023, mas 2024 acabou sendo o ano mais quente já registrado.

As condições de El Niño vão jogar combustível na fogueira de um mundo que já está esquentando, resumiu o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Se o padrão se repetir, 2027 tem tudo para superar 2026 em recordes de calor. Vale acompanhar de perto, porque essa combinação de El Niño com aquecimento de longo prazo já vem sobrecarregando até usinas de energia na Europa.

Fonte: https://www.technologyreview.com/2026/08/13/1141788/summer-heat-el-nino/