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Tumba no Egito revela como o costume funerário evoluiu com o tempo

· por Lia Andrade

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Imagina um prédio antigo que, em vez de ser demolido, vai sendo reformado e reocupado geração após geração, guardando resquícios de cada época em suas paredes. É mais ou menos essa a lógica que arqueólogos encontraram na Tumba Tebana 209, no Egito, e que olha que coisa interessante: ela conta uma história de como os costumes funerários se transformaram ao longo de séculos.

O estudo, publicado na revista Frontiers in Environmental Archaeology, analisou essa estrutura da necrópole ocidental de Tebas, erguida originalmente para um alto funcionário de origem núbia chamado Nisemro, na 25ª Dinastia, entre 754 e 656 a.C. A tumba foi abandonada só no período ptolomaico, quase seis séculos depois. Pelo caminho, ela sofreu com enchentes repetidas, já que fica dentro de um canal de drenagem ativo do Wadi Hatasun, o que tornou o local um verdadeiro quebra-cabeça estratigráfico para os pesquisadores.

De sepultamento individual à reocupação em camadas

A equipe focou na Câmara Lateral 3, um espaço secundário que permaneceu relativamente intacto. Ali, encontraram 16 corpos mumificados, totalizando 1.444 ossos, um cão mumificado e outra câmara com 1.775 fragmentos ósseos desarticulados de pelo menos quatro pessoas. Os enterros mais antigos, ainda da 25ª Dinastia, eram individuais, com homens e mulheres frequentemente separados, embora os autores peçam cautela para não superinterpretar esse padrão.

Com o tempo, especialmente entre o fim da 25ª Dinastia e a fase persa, os novos corpos passaram a ser colocados sobre áreas já ocupadas por outras mumificações. É como se o espaço fosse sendo reaproveitado camada sobre camada, aumentando a densidade de ocupação sem que isso significasse descuido ritual.

Uma espécie de memória funerária

O estudo detalhado dos corpos indica que não houve acumulação caótica nem perda do ritual original com o tempo. Havia, sim, uma lógica espacial em que cada nova deposição se adaptava à presença dos corpos anteriores, uma espécie de memória funerária nos processos de reaproveitamento.

Essa frase, do coautor Jared Carballo-Pérez, da Universidad de La Laguna, resume bem o achado central: mesmo reutilizando o espaço, os egípcios mantinham uma organização deliberada, quase como quem reorganiza um arquivo antigo sem descartar o histórico das versões anteriores.

Segundo os pesquisadores, esse padrão não é exclusivo da TT 209. Cerca de 80% das tumbas tebanas do primeiro milênio a.C. mostram vestígios de diferentes períodos convivendo no mesmo espaço, com materiais e práticas que se misturam camada após camada. Para chegar a essas conclusões, a equipe combinou análise osteológica com o que chamam de abordagem arqueotanatológica integrada, cruzando posição dos corpos, uso de caixões e relações estratigráficas para reconstruir a sequência cronológica dos sepultamentos.

No fim, a Tumba 209 funciona como um registro físico de mudanças de costume, mostrando que reaproveitar espaço funerário não era sinônimo de desleixo, mas sim de uma lógica própria e persistente ao longo de séculos.

Fonte: https://arstechnica.com/science/2026/08/theban-tomb-reveals-how-egyptian-burial-trends-evolved-in-time/