Andei duas milhas até o escritório com um cachorro-robô ao meu lado. Nunca recebi tanta atenção de estranhos na vida. Gente parando para fotografar, criança pedindo truque, cachorro de verdade latindo e mantendo distância. O bicho mecânico fez cambalhota, plantou bananeira e cumprimentou uma fila de curiosos.
O modelo é o Go2 Pro, da chinesa Unitree. Paguei US$ 4.017. É o valor mais alto que já gastei para testar um produto — e, ao mesmo tempo, é barato para o que ele é. Alguns anos atrás, um robô de quatro patas com essa capacidade custava uma fortuna que só laboratório de pesquisa bancava.
O que ele faz bem (e o que não faz)
Vou ser direto: utilidade prática ainda é pouca. Ele não tem braços nem mãos, então dentro de casa serve quase como um pet caro e barulhento. Robô de rodas entrega mais rápido e gasta menos energia. Drone cobre inspeção e mapeamento melhor. O cachorro-robô fica no meio do caminho, sem um trabalho óbvio.
O que ele tem de diferente é o preço. E preço baixo muda tudo. Quando uma tecnologia fica acessível, gente começa a inventar uso que não fazia sentido antes. Foi assim com o computador pessoal: a Xerox criou a interface gráfica, mas Apple, IBM e Microsoft levaram aquilo para a mesa de todo mundo.
Dez anos atrás, só um punhado de grupos no planeta conseguia construir um quadrúpede. A Unitree democratizou a pesquisa inteira nessa área.
Quem me disse isso foi o professor Xuesu Xiao, roboticista da George Mason University. No laboratório dele, em Arlington, vi quatro quadrípedes da Unitree, cada um na casa dos US$ 15 mil, dividindo espaço com um Spot, da Boston Dynamics.
O passeio que terminou mal
Na ida, tranquilo: duas milhas ladeira abaixo, bateria sobrando. Recarreguei no trabalho. Na volta, subida e 30°C. O passo foi ficando pesado. Olhei a tela do celular: 5% de bateria e 84°C de temperatura interna. A poucos metros de casa, ele simplesmente tombou de costas, pernas para o ar, luz vermelha piscando e o lidar girando no nariz.
Não sei se foi energia ou calor. Sei que não foi um desligamento elegante. É o tipo de detalhe que nenhum vídeo de lançamento mostra e que só aparece quando você usa a coisa de verdade.
Por que a Unitree importa
A empresa usou os quadrípedes como trampolim para humanoides. Lançou o primeiro em 2023 e hoje vende humanoide a partir de US$ 13.500 — ainda fora do meu bolso, mas muito abaixo do que se pagava há poucos anos. Isso fez da Unitree uma líder global na categoria.
O mercado reagiu. A estreia na bolsa de Xangai, em 19 de agosto, teve alta de mais de cinco vezes no primeiro dia. Depois recuou, mas a avaliação ainda rondava US$ 34 bilhões, mais que o triplo do valor pré-IPO.
Meu cachorro-robô não busca o jornal, não faz café e desmaia na subida. Mas custou o preço de um notebook bom. Talvez seja essa a notícia: a robótica de pernas saiu do laboratório e chegou ao cartão de crédito de gente comum.
Fonte: https://arstechnica.com/gadgets/2026/09/i-spent-4000-on-a-robot-dog-from-china/
