Tecnologia

O xixi não vai refrigerar data centers, mas a água reciclada já faz isso

· por Rafa Tanaka

TECNOLOGIA

A Liquid Death fez aquela campanha clássica de marca ‘de boa, isso é piada’ com o ex-jogador Jason Kelce, sugerindo que a galera mije para ajudar a resfriar data centers de IA. Tem gente cantando em coro sobre salvar a humanidade fazendo xixi em computadores. É engraçado. Só que, sem querer, a marca tropeçou numa verdade real do setor.

Segundo especialistas ouvidos pelo TechCrunch, data centers já usam água reciclada para resfriamento há bastante tempo, e isso inclui água de esgoto tratada, que sim, carrega urina no meio do processo. Só que ninguém está despejando xixi cru direto nos equipamentos.

Você não usaria só xixi, mas pode tratá-lo e transformar em água útil, e é isso que defendemos, explicou Bruno Pigott, da WateReuse Association.

O motivo é simples: urina pura carrega sal, ureia, bactérias e outros resíduos que entopem e sujam sistemas de resfriamento evaporativo, aquele processo em que o ar quente passa pela água para perder calor. Jogar fluido bruto ali seria um pesadelo de manutenção constante.

Por isso existe uma etapa intermediária: estações de tratamento que usam biorreatores de membrana, osmose reversa e luz ultravioleta para transformar esgoto em água segura para uso industrial, e em alguns casos até potável. Essa água de reúso já é padrão em várias indústrias há décadas, mas o boom de data centers de IA deu um empurrão extra na demanda.

Um exemplo concreto: o condado de Loudoun, na Virgínia, tem mais de 250 data centers e outros 24 planejados. Em 2025, essas instalações consumiram cerca de 200 milhões de galões de água reciclada por dia, mas isso cobre só 43% do consumo total. Os outros 57%, cerca de 260 milhões de galões diários, ainda saem direto da rede de água potável.

O problema não é falta de vontade, é infraestrutura. Tratar volumes desse tamanho exige estações robustas nas proximidades, e quando data centers se instalam em áreas rurais, muitas vezes essas estações são pequenas demais para dar conta do recado. Construir esse tipo de estrutura leva tempo, e é exatamente aí que a pressão da IA pode ajudar: a Meta, por exemplo, vai investir pelo menos 270 milhões de dólares em infraestrutura de tratamento de água perto dos seus data centers.

Na prática, o que isso significa pro usuário final? Nenhuma ação direta sua, óbvio, mas é um bom termômetro de para onde vai o dinheiro da corrida de IA. Toda vez que um provedor anuncia um modelo novo ou mais capacidade de nuvem, tem um data center rodando atrás disso, consumindo água e energia em algum lugar. Água reciclada é uma solução de infraestrutura chata e nada viral, mas é ela que vai decidir se essa expansão é sustentável ou se vira motivo de briga com comunidades locais, como já está acontecendo na Virgínia.

Então não, seu xixi sozinho não vai resfriar servidor nenhum. Mas o sistema de esgoto tratado da sua cidade, sim, já pode estar fazendo esse trabalho, mesmo que ninguém tenha feito uma campanha de marketing sobre isso.

Fonte: https://techcrunch.com/2026/08/20/ok-can-we-actually-cool-data-centers-with-our-pee/