Inteligência Artificial

IA não vai curar câncer sem dado humano real, diz startup

· por Lia Andrade

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Toda vez que um executivo de IA promete curar o câncer, vale lembrar de uma frase que anda circulando nos bastidores da biotecnologia: os modelos aprendem muito bem a curar doenças em camundongos, mas travam quando o paciente é gente de verdade. É basicamente o resumo da crítica que a startup Vivodyne está fazendo ao setor inteiro.

A ideia da empresa é simples de explicar e complexa de executar: construir uma máquina modular, batizada de HIVE, capaz de cultivar vinte tipos diferentes de tecido humano e depois dosá-los e monitorá-los de forma autônoma. O objetivo é gerar o tipo de dado causal que hoje simplesmente não existe em escala — porque a maior parte vem de testes em animais ou de estudos isolados com células e proteínas, não de tecido vivo reagindo a um estímulo real.

Sem testes em humanos, o que esses modelos vão fazer? Vão curar câncer em camundongos, resume Andrei Georgescu, CEO e cofundador da Vivodyne.

O próprio Dario Amodei, CEO da Anthropic, reconheceu recentemente que a promessa de IA curando câncer já virou clichê antes de virar resultado. É uma autocrítica interessante, considerando que ele mesmo, Sam Altman e Demis Hassabis já usaram essa mesma promessa para justificar bilhões em infraestrutura de computação.

Os números concretos ainda são modestos: apenas um punhado de remédios desenhados por IA chegou a testes clínicos em humanos, e só um avançou até a fase 3. O AlphaFold, vencedor do Nobel, decifrou como proteínas se dobram, mas ainda não produziu nenhum medicamento novo. A Isomorphic Labs, construída sobre essa base, adiou seus primeiros ensaios clínicos de 2025 para o fim deste ano.

Georgescu chama isso de falta de um teste de realidade: os modelos atuais simplesmente não têm dados suficientes para capturar a complexidade da biologia humana. E o histórico do setor sustenta essa tese — cerca de 90% dos remédios que funcionam em testes com animais nunca chegam a ser aprovados para uso em pessoas.

A Vivodyne, que nasceu em 2021 de uma pesquisa de doutorado na Universidade da Pensilvânia, divulga números próprios de precisão que chamam atenção:

  • Tecido de fígado: 94% de acerto na previsão de toxicidade comparado a testes clínicos humanos
  • Tecido de vias aéreas: 96% de coerência com o comportamento real do tecido humano
  • Medula óssea: 100% de concordância em testes com 20 medicamentos de quimioterapia diferentes

Com quase US$ 80 milhões captados em duas rodadas, lideradas pela Khosla Ventures, a empresa abriu na semana passada, perto de São Francisco, o que descreve como o maior centro de dados humanos do mundo. Segundo Georgescu, a operação já roda o dobro do volume de todos os testes em animais feitos nos Estados Unidos somados.

A comparação que ele usa é com testes de colisão automotivos: uma montadora normalmente já sabe que o carro vai passar no teste antes de rodar a simulação. Farmacêuticas raramente têm essa confiança antes de um ensaio clínico. A aposta de longo prazo da Vivodyne é treinar a próxima geração de modelos de IA com dados que expliquem causa e efeito na biologia humana, não apenas fotografias estáticas de células — o que, segundo um estudo publicado na Nature Methods, é exatamente o que falta aos modelos atuais.

Fonte: https://techcrunch.com/2026/08/19/ai-isnt-close-to-curing-cancer-this-startup-says-it-knows-what-it-will-take/