Inteligência Artificial

IA generativa já engana até quem procura bichinho perdido

· por Rafa Tanaka

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Confesso que parei de acreditar em qualquer vídeo de bichinho fofo na timeline sem checar duas vezes. E não sou só eu: dono de pet, ONG de resgate e até fotojornalista que documenta maus-tratos de animais estão na mesma. O motivo é simples de entender e chato de viver: a IA generativa ficou boa demais em fabricar cena de animal que nunca existiu.

O caso que resume bem o problema é o de Mibbby Butler, que perdeu o gato Brooklyn em Los Angeles. Ela recebeu uma mensagem dizendo que o bichano tinha sido encontrado, junto com uma foto dele sendo abraçado numa cozinha. Só que, olhando com atenção, ela notou que o rótulo de uma garrafa no fundo da imagem estava com o texto embaralhado, aquele erro clássico de conteúdo gerado por IA. Era golpe: para “recuperar” o gato, ela precisaria pagar adiantado por uma suposta guarda temporária. Ela não pagou, mas quatro meses depois o Brooklyn continua desaparecido.

Não é só golpe individual

O problema também bate em quem produz conteúdo de verdade. A organização We Animals, que reúne fotojornalistas documentando maus-tratos em fazendas, circos e laboratórios, começou a ser acusada de usar IA justamente porque suas imagens reais parecem “perfeitas demais”. Um vídeo de drone mostrando fileiras de cabanas usadas para separar bezerros das vacas leiteiras no Arizona virou alvo de comentários pedindo prova de que não era gerado por IA.

A diretora de conteúdo visual da ONG resume o risco: perder a credibilidade agora pode abrir a porta para que qualquer trabalho legítimo passe a ser questionado no futuro.

Por isso a organização já planeja mostrar bastidores de apuração e adotar tecnologia que grava a origem e o histórico de edição de fotos e vídeos direto no arquivo digital. Basicamente, um jeito de provar procedência sem depender só da palavra de quem publicou.

O incentivo perverso é econômico

Vídeo falso de animal é barato de produzir e, segundo o filósofo e ativista Oscar Horta, está afogando conteúdo real nos feeds e nos resultados de busca porque gera curtida e receita de anúncio fácil. Ele cita casos de urso-polar sendo “resgatado” em cenas fabricadas, o que classifica como ridículo e nada representativo do que é ajuda de verdade a um animal. O risco prático: isso pode minar doações para resgate de bichos em enchente ou incêndio, justamente quando eventos climáticos extremos estão mais frequentes.

Do lado da pesquisa, Jeff Sebo, da Universidade de Nova York, começou a pressionar empresas de IA para incluir compromissos de bem-estar animal nas diretrizes de uso da tecnologia. É um primeiro passo, mas mostra que o problema já saiu do campo do meme e entrou na pauta de política de plataforma. Enquanto isso, minha dica prática de sempre: zoom na imagem, olha o fundo, olha o texto de rótulo e embalagem. Se estiver borrado ou sem sentido, é sinal amarelo.

Fonte: https://www.wired.com/story/ai-slop-is-ruining-the-internets-cute-animal-economy/