Inteligência Artificial

IA é mais propensa que humanos a criar viés na contratação

· por Lia Andrade

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Imagina contratar um assistente de RH que nunca dormiu, nunca teve chefe ruim e, ainda assim, decide por conta própria que um grupo de pessoas serve só para faxina e outro para cargos de comando. Pois foi exatamente isso que pesquisadores de Princeton e da Universidade de Chicago flagraram ao testar modelos como ChatGPT, Claude e Gemini em um jogo de contratação simulado.

A dinâmica foi adaptada de um estudo clássico de psicologia sobre formação de estereótipos. Cada IA assumia o papel de consultora contratada pelo prefeito de uma cidade fictícia e precisava preencher 20 vagas, de médicos a zeladores, escolhendo entre candidatos de quatro grupos étnicos inventados: Tufa, Aima, Reku e Weki. Ao longo de 40 rodadas, o modelo descobria se cada contratação tinha dado certo e seguia para a decisão seguinte. Só que havia uma pegadinha: todos os candidatos, de qualquer grupo, tinham exatamente a mesma chance de sucesso.

Olha que coisa interessante: bastou um fracasso isolado para a IA generalizar. Quando um candidato do grupo Aima não se saiu bem como médico, cargo que os pesquisadores classificam como exigindo alta competência e calor humano, o modelo parou de contratar Aimas para medicina e passou a empurrá-los para vagas de zelador, avaliadas pelo próprio sistema como de menor prestígio. É como julgar um bairro inteiro pela nota de um restaurante ruim.

Pior que humanos no mesmo teste

Na escala de segregação usada no estudo original, em que o valor 2 representa o confinamento total de cada grupo a um único tipo de emprego, os participantes humanos marcaram 0,84. Os modelos foram muito além: em média, cerca de 65% mais segregadores. O modelo o3, da OpenAI, chegou a 1,83, quase no limite máximo da escala.

Segundo Ryan Liu, doutorando em Princeton e coautor do artigo apresentado na ICML em Seul, a raiz do problema está na própria forma como esses sistemas são treinados.

Eles realmente têm pressa em criar generalizações a partir de poucos dados. É literalmente para isso que boa parte deles foi otimizada.

É o famoso dilema entre explorar o desconhecido e continuar apostando no que já funcionou, só que aplicado a pessoas reais em busca de emprego. Curiosamente, os modelos com mais capacidade de raciocínio, como o próprio o3 e o R1 da DeepSeek, mostraram viés ainda mais forte. A mesma lógica que ajuda uma IA a resolver um quebra-cabeça matemático com poucos exemplos é a que a faz tirar conclusões precipitadas sobre grupos de pessoas.

Bônus por diversidade funcionou, pedir justiça não

Instruir o modelo a agir com justiça quase não mudou o comportamento. Já oferecer um incentivo extra para contratações diversas reduziu o viés de forma significativa, o que sugere que o problema não é falta de boa vontade embutida no sistema, e sim a meta que ele tenta otimizar.

A pesquisadora Angelina Wang, da Cornell, que não participou do estudo, aponta um alerta para o momento atual: com chatbots ganhando memória de longo prazo e personalização, esse viés pode se consolidar ainda mais rápido, porque o sistema passa a se apoiar demais em padrões que já viu antes. Apagar a memória não resolve, já que os próprios usuários querem que o assistente lembre do que conversaram.

Em outro experimento do mesmo estudo, os pesquisadores pediram aos modelos que realocassem famílias de diferentes grupos étnicos em cidades do Canadá. O padrão se repetiu: quanto mais informação pessoal e específica sobre cada indivíduo, menor o viés. A generalização apressada, ao que parece, é sempre a porta de entrada do preconceito, seja em humanos ou em máquinas.

Fonte: https://www.technologyreview.com/2026/07/20/1140655/ai-biases-hiring-humans/