Tecnologia

Historiadora de Harvard diz que big techs viram Estado paralelo

· por Rafa Tanaka

Jill Lepore, historiadora de Harvard e ganhadora do Pulitzer, tem um livro novo saindo chamado “The Rise and Fall of the Artificial State”. A tese central é direta: empresas de tecnologia estão assumindo papéis que antes pertenciam ao governo. Segundo ela, isso não é modinha passageira, é mudança estrutural em como o poder funciona.

No podcast Equity, do TechCrunch, ela explicou o conceito de “Estado artificial”: um sistema em que algoritmos, corporações e máquinas substituem funções que a democracia liberal costumava exercer. Ela deixa claro que não é contra tecnologia (o marido dela é cientista da computação, aliás). O problema, na visão dela, é outro: corporações privadas foram assumindo função de Estado sem que ninguém tenha votado nisso.

Por que isso importa pra quem usa a internet todo dia

Pensa comigo: toda vez que uma plataforma decide moderação de conteúdo, cria moeda própria, monta infraestrutura de identidade digital ou treina modelo que decide o que você vê primeiro, ela está exercendo um tipo de poder que costumava ser função pública. Lepore argumenta que essa transição começou com boas intenções, eficiência, velocidade, custo baixo, mas nos últimos vinte e cinco anos virou projeto deliberado de alguns líderes de tech que querem passar por cima do Estado-nação.

A parte mais curiosa da entrevista é quando ela aponta que boa parte dessa visão de futuro vem de leitura errada de ficção científica pulp e quadrinhos. O alvo principal é Elon Musk. Segundo Lepore, as histórias que ele mais cita como inspiração, na real, contradizem as próprias ideias políticas que ele defende. Ou seja: ele parece ler ficção distópica como manual de instrução, quando o recado original era um alerta.

O paralelo com o comercial de 1984

Um dos momentos mais interessantes da conversa é quando ela volta ao comercial da Apple de 1984, inspirado no livro do Orwell, que lançou o Macintosh. A ideia vendida na época era simples: computador pessoal representa liberdade contra o mainframe totalitário. Só que, décadas depois, segundo Lepore, várias das promessas feitas ali, como internet mais democrática e tecnologia descentralizando poder em vez de concentrar, simplesmente não se sustentaram.

Ela também cita o Telecommunications Act de 1996 como um momento decisivo, mais fruto de contexto político do que de plano deliberado, mas que moldou a internet que usamos hoje de um jeito difícil de reverter.

Minha leitura: não precisa comprar cem por cento da tese pra achar o ponto relevante. Cada vez que uma empresa de tecnologia decide uma regra que afeta bilhões de pessoas, seja moderação, algoritmo de recomendação, moeda ou identidade digital, vale perguntar quem decidiu isso e com que autoridade.

Não é sobre ser contra inovação. É sobre notar quando decisão de produto vira decisão de política pública sem passar pelo processo que normalmente associamos a política pública.

Fonte: https://techcrunch.com/2026/08/09/historian-jill-lepore-says-the-tech-industry-is-led-by-bad-readers-who-are-undermining-democracy/