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Hidrogênio geológico: a corrida por gás natural sob a Terra

· por Lia Andrade

TECNOLOGIA

Imagina cavar o solo e encontrar, em vez de petróleo, um gás limpinho que quando queima solta só água e oxigênio. É exatamente essa promessa que tem movimentado geólogos e investidores nos últimos meses: o hidrogênio geológico, aquele que a natureza já fabrica sozinha lá nas profundezas da crosta terrestre.

O hidrogênio serve de combustível pra quase tudo, de caminhão pesado a avião, passando pela produção de aço. O problema sempre foi como fabricar esse gás sem sujar as mãos com carbono. Hoje, a maior parte vem de gás natural, um processo que gera bastante emissão e vai parar principalmente em refinarias de petróleo e fábricas de fertilizante.

Duas apostas que engasgaram

Durante anos, a corrida pelo hidrogênio limpo se dividiu em dois times: eletrolisadores movidos a energia renovável de um lado, e processos fósseis turbinados com captura de carbono do outro. Bonito no papel, caro na prática. Os dois modelos patinaram justamente pelo custo alto de produção.

É aí que entra a terceira via, que vem ganhando tração: em vez de fabricar hidrogênio, por que não simplesmente encontrar esse gás já pronto, guardado nas rochas? Empresas já identificaram bolsões naturais na África, Ásia, Europa, Austrália e América do Norte. O Serviço Geológico dos EUA até publicou um mapa de probabilidade, tipo uma previsão do tempo, mas apontando onde é mais provável achar hidrogênio embaixo do chão.

Um dos pontos mais promissores é o chamado Midcontinent Rift, uma fenda que corta o meio-oeste americano do Kansas a Michigan. Cerca de um bilhão de anos atrás, a crosta terrestre esticou e rachou nessa região, deixando rocha derretida subir e se cristalizar em formações ricas em ferro. E rocha rica em ferro, em contato com água, funciona como uma fábrica natural de hidrogênio.

A australiana HyTerra já está de picareta na mão em Nebraska e Kansas, e encontrou amostras de gás com concentração de hidrogênio de até 96%, um número que impressiona qualquer geólogo. A Koloma, uma das empresas mais capitalizadas do setor, com mais de US$ 400 milhões captados, também prospecta na mesma região.

O desafio é achar e capturar

A grande dúvida agora é: quanto hidrogênio a natureza realmente produz, e será que dá pra capturar esse gás antes que ele escape? O hidrogênio é uma molécula tão leve e pequena que atravessa rachaduras minúsculas na rocha com a mesma facilidade que um gato escorrega por um portão mal fechado.

Um estudo em uma mina no norte de Ontário, no Canadá, trouxe um indício animador: cada furo de sondagem analisado liberava cerca de 8 quilos de hidrogênio por ano. Como só esse local tem mais de 14 mil furos, a conta de hidrogênio potencial cresce rápido.

Se a engenharia e a logística se encaixarem, esse pode ser o começo de uma nova era para o hidrogênio.

Quando a natureza precisa de um empurrão

Outras empresas preferem não esperar pela sorte geológica e provocam a reação diretamente. É o chamado hidrogênio geológico estimulado: perfura-se um poço em uma área com boas condições, mas sem reserva acumulada, e injeta-se água e catalisadores pra dar o pontapé inicial na reação química.

A texana Vema Hydrogen já testa esse método em poços no Quebec e projeta produção em escala plena a partir de 2028. Já a Eden GeoPower usa eletricidade pra abrir redes de fraturas na rocha, criando caminhos pra água entrar, técnica que também pode servir a projetos de geotermia avançada.

Ainda falta responder perguntas grandes, principalmente sobre como transportar e armazenar um gás tão volátil, que exige muito espaço ou temperaturas extremamente baixas pra virar líquido. Mas se essas peças se encaixarem, o hidrogênio pode finalmente sair do papel, ou melhor, sair do subsolo.

Fonte: https://www.technologyreview.com/2026/08/20/1142512/geologic-hydrogen-hunt/