Inteligência Artificial

Entrevista de emprego às 1h da manhã: a nova rotina da IA no RH

· por Rafa Tanaka

Imagina receber um e-mail de entrevista de emprego e, em vez de marcar horário com alguém do RH, só ter que gravar suas respostas quando der. Foi isso que aconteceu com Tim Millard, profissional de comunicação de Atlanta: ele arrumou a sala, ligou o notebook às 21h30 e respondeu perguntas com 30 segundos para pensar e dois minutos para gravar. Sem ninguém do outro lado da tela.

Esse tipo de entrevista automatizada já é rotina em boa parte dos processos seletivos, e um efeito colateral interessante apareceu: como não tem recrutador esperando, muita gente está fazendo essas entrevistas de madrugada.

Os números mostram que isso não é exceção

  • Na Ribbon, empresa de entrevistas por voz com IA usada por mais de 500 companhias, 24% das entrevistas acontecem entre 22h e 2h da manhã.
  • Entre clientes do setor de manufatura, esse número sobe para 35%.
  • No Greenhouse, outra plataforma de recrutamento, de 15% a 20% dos candidatos escolhem horário noturno para falar com o agente de voz.

Faz sentido quando você para pra pensar em quem está do outro lado: gente que trabalha em turno, quem cuida de filho de dia, quem só tem tempo livre depois que a casa dorme. Arsham Ghahramani, cofundador da Ribbon, resume bem o motivo prático disso.

Algumas pessoas são muito limitadas em quando e como conseguem fazer uma entrevista.

Só que ganhar flexibilidade de horário não significa que o processo virou mais gostoso de encarar. Pesquisa do Greenhouse mostra que quase dois terços dos candidatos já passaram por entrevista com agente de IA, salto de 13 pontos em seis meses. E a reação não é exatamente positiva: 38% dos candidatos americanos abandonaram um processo seletivo justamente por causa da entrevista com IA, e outros 12% disseram que fariam o mesmo se isso fosse obrigatório.

O que rola por trás da tela

Cada vaga tem um roteiro próprio de avaliação. Um soldador pode ser questionado sobre certificações técnicas, enquanto quem busca vaga de vendas recebe nota de “entusiasmo”. A IA analisa o vídeo, cruza com esse roteiro e manda uma pontuação pro recrutador, junto com a gravação, que muitas vezes nem chega a ser vista por um humano.

Ophir Samson, que hoje lidera a divisão de voz com IA do Greenhouse, defende que a ferramenta funciona como um complemento ao currículo, não como substituto do entrevistador humano. Pra ele, a escolha real não é entre robô e pessoa, é entre ser ignorado silenciosamente ou ter uma chance a mais de chegar à próxima fase.

Na prática, quem está caçando emprego hoje lida com dois problemas ao mesmo tempo: currículos que se perdem em pilhas de candidaturas turbinadas por IA e entrevistas automatizadas que ainda geram desconfiança sobre como a nota final é calculada. Millard, um ano depois, continua procurando emprego. E resume o clima geral melhor do que qualquer estatística: ele só queria “dar aquele troço maldito como feito” o mais rápido possível.

Fonte: https://www.wired.com/story/the-rise-of-the-1-am-job-interview/