Deepfake: o choque de ver seu corpo usado sem consentimento
Imagina só: você está de boa, fazendo sua vida, e de repente descobre que seu corpo foi usado em um vídeo que você nunca fez, com o rosto de outra pessoa. Parece roteiro de filme, né? Mas é a realidade de muita gente, como a Jennifer, que descobriu um deepfake usando seu corpo em um vídeo que ela gravou anos atrás. O mais bizarro é que a tecnologia de reconhecimento facial identificou ela, mesmo com outro rosto por cima. É como se ela estivesse usando uma máscara, mas ao contrário: o corpo dela era a máscara para o rosto de outra pessoa.
A gente ouve muito falar de deepfakes quando o assunto é colocar o rosto de celebridades em vídeos comprometedores. E sim, isso é um problema sério que afeta principalmente mulheres e, às vezes, até jovens. Mas o que quase ninguém discute é: de quem é o corpo que está sendo usado nesses deepfakes? Por anos, a resposta tem sido a mesma: criadores de conteúdo adulto. Eles são os ‘esquecidos’ nessa conversa, as vítimas que ninguém lembra de proteger.
O termo ‘deepfake’ surgiu lá em 2017, quando um usuário do Reddit começou a postar vídeos com rostos de atrizes famosas em corpos de atrizes pornô. Naquela época, o uso não consensual de corpos já era uma realidade para quem trabalhava nessa indústria. Mas com o avanço da IA generativa e a proliferação de aplicativos que ‘despem’ fotos, a coisa ficou bem mais complexa e perigosa para o futuro desses criadores.
Hoje, não é só uma questão de pegar um vídeo existente e trocar o rosto. O problema é mais profundo. Os corpos desses criadores estão sendo usados como dados de treinamento para ensinar a IA a gerar novos corpos, novos movimentos, novas performances. Isso significa que o trabalho deles, que já é marginalizado, está sendo usado para criar cópias digitais que podem roubar seu sustento. É como se a IA estivesse aprendendo com eles para depois competir com eles mesmos.
E não para por aí. A IA agora consegue recriar a imagem completa desses artistas sem consentimento. Isso abre um precedente perigoso, porque essas ‘cópias’ digitais podem fazer coisas que os artistas reais nunca fariam, como participar de atos sexuais que não foram consentidos ou até mesmo aplicar golpes em fãs. A Jennifer, por exemplo, relatou o trauma psicológico de saber que seu corpo foi usado sem permissão. Ela não é a única. Muitos outros criadores compartilham o peso mental e o medo de perder dinheiro com a pirataria de seu trabalho.
Um advogado especializado na indústria adulta, Corey Silverstein, conta que recebe diariamente relatos de atores preocupados com a exploração de seu conteúdo pela IA. Eles estão tentando descobrir como se proteger. É um cenário complicado, onde a tecnologia avança rápido demais para a legislação e para a proteção dos direitos individuais. Esses criadores, muitas vezes vistos como ‘vítimas esquecidas’, precisam de atenção e soluções urgentes para garantir que seu trabalho e sua dignidade sejam respeitados na era da inteligência artificial.


