Apple e a IA: A aposta da paciência está valendo a pena?
Por um bom tempo, a Apple foi vista como a atrasadinha na corrida da inteligência artificial. Muita gente dizia que a falta de uma estratégia clara estava fazendo a empresa perder terreno, e até analistas de mercado se preocupavam que isso pudesse afetar as vendas do iPhone.
Agora, a empresa finalmente revelou o que chama de seu maior lançamento em IA até hoje: a nova Siri. Ela traz recursos automatizados que se integram ao coração do sistema operacional, e isso é fruto de uma parceria com o Google Gemini. A pergunta que fica é: isso é o suficiente para calar quem diz que a Apple está ‘perdendo’ a corrida da IA?
Pra ser bem sincero, ninguém sabe ao certo. Mas talvez essa nem seja a pergunta certa. A questão que realmente importa é: os usuários da Apple vão usar esses novos recursos? E se usarem, isso vai ajudar a empresa?
Antes de mergulhar nisso, vale a pena destacar um comentário interessante de Craig Federighi, vice-presidente sênior de engenharia de software da Apple, durante os anúncios. Ele disse que alguns parecem estar correndo ‘apenas por correr’, sem pensar nas pessoas que a IA deveria servir. E completou que a missão da Apple sempre foi transformar tecnologia avançada em produtos úteis e intuitivos para todos.
Essa fala, que não esconde uma certa provocação, parece ser uma resposta às críticas de que a Apple estaria ‘atrasada’ na IA. Mas também é um jeito inteligente de reconhecer que muita gente tem um pé atrás com a inteligência artificial, preocupada com o impacto no trabalho e na vida. A Apple se posiciona como a empresa de IA que está do seu lado, e não contra você.
Pelo que vimos nas demonstrações, essa postura tem fundamento. A Siri agora consegue achar informações que estão escondidas no seu e-mail ou histórico de mensagens, e te dar sugestões úteis com base nisso. Ela usa algo que a Apple chama de ‘consciência na tela’ para entender o que você está vendo. E, com a ajuda do Gemini, ela pode buscar informações atualizadas da internet quase instantaneamente e te entregar direto no aparelho.
A Siri também foi feita para funcionar de forma fluida em todos os dispositivos Apple, dando mais flexibilidade. E, assim como outros chatbots de IA, ela guarda o histórico das conversas, pra você poder revisitar o que já foi dito.
Ao embutir a IA na sua assistente virtual, a Apple pode até diminuir a vantagem de concorrentes cujos aplicativos só chegam aos usuários pela App Store. Para essas empresas, ter a IA da Apple no nível do sistema operacional é uma ameaça real à sua vantagem de distribuição.
A palavra-chave aqui é ‘potencial’, já que essa versão da Siri só vai chegar aos consumidores como beta mais pra frente, ainda este ano. O veredito final ainda vai demorar, mas já está claro que a Apple está se esforçando para conquistar seu público, gostem eles ou não.
A Apple é, antes de tudo, uma empresa de hardware. E essas atualizações são pensadas para tornar esse hardware ainda mais fácil e prático de usar, mantendo os usuários conectados por mais tempo. O contraste com os concorrentes é bem instrutivo e talvez seja o sinal mais importante do que está por vir na indústria da IA.
Pense na OpenAI, que lança atualizações sem parar, mas ainda não definiu bem para quem está vendendo, alternando entre consumidores e empresas. Ou na Meta, que injeta rios de dinheiro em IA sem explicar direito como isso se conecta ao seu negócio principal de publicidade.
A abordagem mais ponderada da Apple começa a parecer a mais inteligente, e financeiramente mais sólida. A empresa não precisou de uma estratégia de IA bombástica. No último trimestre, o iPhone teve vendas históricas. E enquanto surgem dúvidas sobre a rentabilidade da IA e sua utilidade real, a Apple gasta bem menos que seus concorrentes – cerca de 14 bilhões de dólares em investimentos planejados para este ano, contra um total de 900 bilhões de dólares que outras gigantes da tecnologia estão comprometendo – e ainda assim gera uma receita enorme. Essa receita, inclusive, vem da própria indústria de IA, através de taxas cobradas de empresas de IA que usam a App Store para distribuir seus aplicativos.
Em resumo, a Apple gasta menos, ganha mais e agora lançou um pacote de recursos de IA que, para muitos usuários de iPhone, não vai ser muito diferente de outros aplicativos de IA que já estão disponíveis na App Store. Se isso não é exatamente ‘vencer a corrida da IA’, talvez seja a forma mais esperta de disputá-la.


