Inteligência Artificial

OpenAI testa raciocínio oculto no Astra e divide especialistas em segurança

· por Lia Andrade

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Que ideia interessante: a OpenAI parece ter dado ao seu novo modelo, batizado de Astra, um jeito de pensar que não segue a lógica passo a passo que a gente está acostumado a ver nos modelos de raciocínio. Segundo reportagem do The Information, a técnica se chama ‘recorrência opaca’, também descrita como ‘profundidade recorrente’, e ela já deixou boa parte da comunidade de segurança em IA de cabelo em pé.

Uma volta no mesmo lugar, só que dentro da cabeça do modelo

Para entender a diferença, pense assim: um modelo de raciocínio tradicional escreve seu pensamento como quem faz uma lista de tarefas, um passo depois do outro, e a gente consegue ler essa lista para entender por que ele chegou a determinada resposta. É a famosa cadeia de pensamento.

Já a recorrência opaca funciona mais como colocar a mesma pergunta dentro de um liquidificador e deixar rodando várias vezes seguidas, sem parar para anotar cada etapa. O modelo processa a mesma consulta em loop, refinando a resposta internamente, mas sem deixar um rastro legível de como ele foi de A a B. O resultado prático é um raciocínio mais difícil de auditar.

Por que isso liga o alarme

Para quem trabalha com alinhamento e segurança de IA, a cadeia de pensamento funciona como a caixa-preta de um avião: imperfeita, mas essencial para investigar o que aconteceu depois de um incidente. Foi justamente esse tipo de registro que ajudou a entender comportamentos estranhos em agentes recentes da própria OpenAI.

Buck Shlegeris, CEO da Redwood Research, disse estar extremamente preocupado com a notícia e apontou um risco maior: se a OpenAI decidir ampliar bastante o uso dessa recorrência, a possibilidade de monitorar o raciocínio pode simplesmente desaparecer. Zvi Mowshowitz, outro nome conhecido na área, seguiu a mesma linha e sugeriu que pode ser necessário algum tipo de regulação antes que os laboratórios entrem numa corrida para cortar cada vez mais transparência.

Segundo Mowshowitz, a técnica arrisca romper um tabu que OpenAI e Anthropic ajudaram a construir: manter a cadeia de pensamento legível e monitorável pelo maior tempo possível.

A OpenAI garante que ainda dá para ler o pensamento do Astra

A empresa reagiu rápido. Segundo o relato, o uso da técnica no Astra ainda é limitado, e o modelo continua produzindo uma cadeia de pensamento legível. Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, reforçou publicamente que preservar esse monitoramento é meta central do programa de pesquisa da empresa desde os primeiros modelos de raciocínio.

Só que o assunto já saiu do controle de uma única empresa: um relato seguinte do The Information apontou que Anthropic e Google DeepMind também estariam de olho na mesma abordagem. E aí entra o alerta mais interessante da história, levantado por Ryan Greenblatt, da Redwood Research: se esse tipo de raciocínio opaco crescer rápido demais, o próximo passo natural seria um modelo pensando quase inteiramente em um espaço latente, invisível para qualquer observador humano.

Vale lembrar que todo modelo de IA já faz uma parte do raciocínio de forma opaca, e poucos pesquisadores tratam a cadeia de pensamento como um espelho perfeito da mente da máquina. Mas a diferença entre um pouco opaco e totalmente opaco pode ser exatamente a linha que separa um sistema auditável de outro que só a própria empresa consegue tentar entender.

Fonte: https://techcrunch.com/2026/09/02/openais-new-reasoning-technique-alarms-ai-safety-experts/