Inteligência Artificial

Candidatar-se a uma vaga ficou fácil demais, e isso é um problema

· por Rafa Tanaka

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Já reparou que se candidatar a uma vaga hoje lembra comprar algo no aplicativo, um clique e pronto? Pois é exatamente isso que virou dor de cabeça pra quem contrata.

Andrew Stockwell, que lidera a área de pessoas na Vendr, contou que até três anos atrás o processo era simples: publicava a vaga, esperava alguns dias e analisava no máximo cem currículos. Hoje, em um ou dois dias, ele recebe mais de mil candidaturas pra uma única posição. Boa parte é falsa, e outra fatia enorme foi escrita com ajuda de IA, o que deixa quase impossível diferenciar um candidato do outro.

Os números por trás da enxurrada de currículos

O LinkedIn confirma o cenário: as candidaturas por pessoa na plataforma subiram 46% em relação a fevereiro de 2020. Desde o lançamento do ChatGPT, esse número cresceu mais 22%. Enquanto isso, o total de vagas abertas nos Estados Unidos caiu bastante, de um pico de 12,3 milhões em março de 2022 pra algo perto de 7 milhões hoje.

Ou seja: menos vagas, mais gente aplicando com ajuda de ferramentas automáticas. A conta não fecha pra quem recruta.

Quando facilitar demais vira problema

Ophir Samson, que hoje comanda a área de IA de voz da Greenhouse, resume bem a virada de chave:

Há um ano, todo recrutador queria facilitar ao máximo a candidatura. O que eles conseguiram foi receber 2 mil inscrições em 24 horas pra uma vaga. Isso é péssimo pra todo mundo.

Segundo ele, os próprios recrutadores agora pedem o contrário: mais atrito no processo, não menos. Faz sentido, na prática a triagem virou o trabalho inteiro de times caros de recrutamento, que passam o dia filtrando planilha em vez de garimpar talento de verdade.

É esse tipo de coisa que dá pra sentir acompanhando ferramentas de recrutamento de perto: quando o funil vira massa, ninguém se destaca, nem o bom candidato nem o recrutador que precisa decidir rápido.

Serviços que aplicam vagas em massa por você

Do lado do candidato, apps como JobAssist, Sonara e o Apply4Me, da Ladders, prometem multiplicar por dez o número de candidaturas enviadas com o mínimo de esforço manual. Na prática, isso significa disparar currículo pra dezenas de vagas por dia, sem revisar cada uma com calma.

O LinkedIn já sentiu o impacto e colocou limites pra reduzir aplicações automáticas e de baixa qualidade. Esse mês, a plataforma lançou um recurso que avisa candidatos aparentemente fora do perfil de que a vaga provavelmente não é pra eles, e já sugere outras opções.

No fim, o que era pra facilitar a vida de todo mundo criou um funil impossível de filtrar. A tendência, pelo visto, é o processo ficar mais lento e com barreiras de propósito, o oposto da promessa de um clique e pronto que a IA vendeu esse tempo todo.

Fonte: https://www.wired.com/story/applying-for-a-job-is-too-damn-easy/