Imagina delegar sua caixa de entrada, seu calendário e até o microfone do celular para um estagiário superpoderoso que nunca dorme. É basicamente essa a proposta do Instinct, assistente de inteligência artificial ainda em acesso privado que já virou assunto obrigatório entre investidores e curiosos do Vale do Silício.
O que o Instinct promete
Criado por uma equipe liderada por Noah Shinn, ex-pesquisador da Sierra, o Instinct funciona como um agente autônomo conectado a e-mail, mensagens, calendário, localização, tela e áudio do dispositivo. Basta mandar uma mensagem de texto ou chamar via WhatsApp para pedir que ele reserve um restaurante, organize a agenda, limpe a caixa de entrada ou encontre passagens aéreas mais baratas. Quem testou descreve a experiência como algo que parece mágica, e algumas vozes influentes já colocam o produto entre os lançamentos mais empolgantes desde o OpenClaw.
O outro lado da mágica
Só que dar esse nível de autonomia para um software tem um preço, e ele está escrito nos termos de uso. O contrato concede ao Instinct uma licença perpétua e irrevogável para acessar, usar, armazenar, reproduzir e até treinar modelos de IA com o conteúdo dos usuários. Na prática, é quase uma procuração em branco: o texto também autoriza a empresa a fechar acordos e transações em nome de quem contrata o serviço.
Alguns testadores já sentiram o peso disso na prática. Um usuário relatou que pediu para excluir seus dados do Gmail e o pedido simplesmente não foi cumprido de início, algo que a equipe corrigiu depois com uma ferramenta específica para apagar dados externos. Outra testadora desconectou o acesso ao Google às 11h e, três horas depois, ainda recebeu um resumo automático da própria caixa de entrada. Ao perguntar o que tinha acontecido, o próprio assistente confirmou que os e-mails continuavam guardados em texto simples para buscas futuras.
Segundo relatos de usuários, desconectar o Instinct de um serviço não significa, necessariamente, que os dados parem de ser processados.
- Licença ampla sobre e-mails, mensagens e arquivos, incluindo uso para treinar modelos de IA
- Falha ao excluir registros de e-mail mesmo após pedido explícito do usuário
- Resumo de inbox gerado horas depois da desconexão do serviço
- Capacidade de capturar tela, cliques e teclas digitadas do dispositivo
- Vulnerabilidade a phishing relatada por um cofundador de startup, que apagou a própria conta
Vale a troca?
É a pergunta que fica no ar. Automatizar tarefas chatas com um agente que enxerga tudo é tentador, mas isso significa entregar as chaves da casa, e-mail, agenda, localização, microfone, para uma empresa que ainda opera em stealth e não detalha publicamente como protege esses dados. O Instinct segue em teste privado, então essas fricções ainda não bateram no público geral, mas funcionam como um lembrete: quanto maior a autonomia de um agente de IA, maior também a superfície de risco. Antes de conectar sua vida inteira a um assistente, vale a pena ler os termos de uso com a mesma atenção que se dedicaria a um contrato de aluguel.