Se você mora perto de câmeras da Flock Safety, presta atenção nisso. A empresa sempre disse que seu sistema não identifica nem rastreia pessoas. Só que a WIRED conseguiu reconstruir o código de uma ferramenta interna, batizada de OS Investigate (antes chamada Nightshift), e descobriu que ela faz exatamente isso.
Na prática, o produto usa uma rede de câmeras espalhada por mais de 6 mil cidades nos EUA pra montar padrões de comportamento de motoristas. Em vez de precisar de uma placa específica, o policial pode simplesmente descrever uma região no mapa, um período de tempo e um tipo de comportamento, e o sistema devolve uma lista de gente que se encaixa.
Como o sistema funciona no dia a dia
A ferramenta vem com 69 comandos prontos que o oficial escolhe, edita e envia pra IA, além de aceitar pedidos escritos livremente. Por trás disso, existem 45 recursos que puxam dados de leitura de placas, boletins de ocorrência, registros de prisão, resultados de balística e bancos comerciais com CPF, data de nascimento, telefone, e-mail e até parentes e contatos próximos.
Um dos comandos pede pra listar veículos mais vistos num bairro nos últimos 14 dias, excluindo carros de uma lista branca. Outro pede o histórico de quem foi presa mais de duas vezes em dois anos e monta um dossiê automático dos três primeiros nomes.
Chama atenção que 19 dos 69 comandos não pedem placa, nome nem descrição de ninguém. Só entram local, horário e um padrão de deslocamento. Tem busca pra carro que passou em três ou mais lojas na mesma cidade em três dias, que visitou vários bancos numa semana, ou que parou em postos de gasolina de madrugada. O filtro até separa vans de entrega e caminhões do resto, pra não confundir rotina de trabalho com comportamento suspeito.
Por que isso importa pra quem usa a rua
Essa mudança é sutil, mas pesada: o sistema deixa de precisar de um suspeito conhecido pra funcionar. Ele parte do trajeto de qualquer pessoa e devolve nomes, endereços e vínculos, sem mandado e sem crime declarado. Especialistas em privacidade já apontam problema constitucional nisso, porque o alvo passa a ser o padrão de vida, não a investigação de um fato específico.
A Flock diz que o produto ainda está em teste com poucos parceiros policiais e que os recursos finais podem mudar. Mas o momento não ajuda a empresa: ela já enfrenta pressão política dos dois lados do espectro, casos de policiais usando o sistema pra espionar ex-parceiros, e câmeras sendo serradas e pintadas por moradores insatisfeitos em várias cidades. Se esse tipo de vigilância chegar por aqui em qualquer formato parecido, vale acompanhar de perto o que muda entre a fase de teste e o produto final.
Fonte: https://www.wired.com/story/flock-safety-os-investigate/