Inteligência Artificial

Bilionários da IA prometem doar fortunas — mas com poucas garantias

· por Caio Mendonça

A indústria de inteligência artificial começou a produzir uma nova classe de bilionários. Agora, tenta produzir também uma nova classe de filantropos. O problema é que promessa de doação não aparece no balanço como dinheiro entregue — e, até lá, continua sendo uma opção futura sobre uma fortuna potencial.

David Silver representa o caso mais vistoso. Ex-pesquisador do Google DeepMind e líder do desenvolvimento do AlphaGo, ele fundou a Ineffable Intelligence em janeiro. A startup levantou US$ 1,1 bilhão com avaliação de US$ 5,1 bilhões, valor descrito como o maior aporte seed da história europeia.

Silver afirma que pretende direcionar à caridade todo o dinheiro obtido numa eventual venda da empresa. O compromisso foi formalizado pela Founders Pledge, organização que transforma a promessa em obrigação contratual. É uma diferença relevante diante da Giving Pledge, iniciativa pública, mas sem força vinculante.

O mercado das promessas

A Founders Pledge registrou salto expressivo no valor comprometido: de US$ 400 milhões em 2023 para US$ 4 bilhões até agora neste ano. Empresas de IA respondem por cerca de um terço do total acumulado. Se OpenAI e Anthropic chegarem ao mercado acionário como planejado, novas ofertas públicas podem multiplicar milionários — e também o volume potencial de doações.

Mustafa Suleyman, cofundador da DeepMind e atual CEO de IA da Microsoft, aparece entre os executivos associados a compromissos semelhantes. Anton Osika, fundador da plataforma de programação Lovable, prometeu doar metade do resultado obtido com sua participação acionária.

O ponto incômodo está no intervalo entre criar riqueza e decidir como redistribuí-la. Críticos questionam se a filantropia privada corrige problemas que o próprio capitalismo tecnológico ajuda a ampliar, como concentração extrema de renda e desigualdade. A comparação feita pela socióloga Linsey McGoey é direta: colocar o responsável pelo incêndio para apagar as chamas.

Capital, impacto e controle

Silver se identifica com o altruísmo eficaz, mas prefere financiar causas com efeito imediato. Cita a Malaria Foundation e a meta de salvar o maior número possível de vidas no curto prazo. A Founders Pledge diz priorizar sofrimento presente, em contraste com teses voltadas ao futuro distante da humanidade.

O cálculo, contudo, permanece concentrado nas mãos de fundadores e investidores. Quanto maior a avaliação, maior o cheque prometido — e maior também o poder privado de escolher quais problemas merecem capital. Para a IA, filantropia pode virar ativo reputacional. Para o público, ainda falta descobrir quanto dessa fortuna chegará ao destino prometido.

Fonte: https://www.wired.com/story/ai-billionaires-are-pledging-their-wealth-good-or-bad/