Todo mês sobra ciência boa que a gente não consegue cobrir a tempo. Dessa vez, duas descobertas usaram tecnologia de imagem para corrigir a história que a gente contava até então sobre corpos muito antigos, e isso muda a leitura de dois rituais completamente diferentes.
O garoto do Cerro El Plomo não morreu congelado
Os incas praticavam um ritual chamado Capacocha, em que crianças eram oferecidas às montanhas depois de peregrinações longas até locais sagrados. Por décadas, a versão aceita era que essas vítimas morriam de hipotermia. Só que um novo exame no corpo conhecido como Menino de Cerro El Plomo encontrou zero sinais de congelamento ou lesões por frio nas extremidades.
O que apareceu foi uma lesão na testa e uma fratura sem qualquer marca de cicatrização, ou seja, aconteceu pouco antes da morte. Os pesquisadores apontam um golpe com uma maça em formato de estrela como arma mais provável. As solas dos pés mostravam desgaste típico de longas caminhadas, batendo com a ideia de peregrinação. Uma tomografia ainda revelou estômago cheio, sugerindo um banquete antes do sacrifício, e esôfago dilatado, compatível com vômito provocado pelo próprio trauma na cabeça.
O mesmo grupo reanalisou os restos de duas meninas encontradas em outro sítio, o Cerro Esmeralda, que se acreditava terem sido estranguladas. As marcas no pescoço, porém, batem mais com tecido de roupa apertada do que com estrangulamento, e o osso hioide das duas está intacto e na posição correta.
Princesas egípcias treinadas para lutar
Escavações do complexo de Dahshur, no Egito, revelaram túmulos de princesas como Ita, Khenmet e Itaweret, enterradas com armas. Um novo estudo cruzou análise óssea, raio-X e espectroscopia FTIR nos materiais de embalsamamento e chegou a uma conclusão direta: essas mulheres provavelmente sabiam usar aquelas armas.
Ita, morta entre os 24 e 28 anos, tinha marcas musculares fortes nos braços, típicas de quem manejava maça ou adaga com frequência. Khenmet, já na faixa dos 30 ou 40 anos, apresentava ligamentos igualmente desenvolvidos. Itaweret, entre 20 e 34 anos, tinha costelas e pés com fraturas cicatrizadas, além de ossos com padrão associado à prática de arco e flecha.
O desenvolvimento acentuado nos membros superiores desses indivíduos se relaciona a ações repetitivas e de alta intensidade, como puxar a corda de um arco ou estabilizar uma arma.
O time também destacou, no mesmo levantamento de julho, outras histórias que quase ficaram de fora: baratas cyborg ganhando um traje de mergulho miniatura para explorar terrenos alagados, cachalotes soltando bolhas quando estão com sono, a melhor evidência até hoje de que Betelgeuse tem uma estrela companheira, e a confirmação de que um duque da família Médici morreu de malária, não envenenado.
O padrão que fica é simples: tomografia, raio-X e espectroscopia estão reescrevendo histórias que a gente considerava fechadas há décadas. Vale acompanhar.
Fonte: https://arstechnica.com/science/2026/08/research-roundup-6-cool-science-stories-we-almost-missed-5/