Quando a alavancagem vira contra você, alguém sempre aparece para comprar o estrago a preço de saldão. Foi o que aconteceu com a Situational Awareness, o hedge fund de Leopold Aschenbrenner: depois de um mês de tombo nas posições de infraestrutura de IA, o grosso do portfólio público foi parar nas mãos de Ken Griffin, via Citadel. O Wall Street Journal foi quem revelou o negócio primeiro.
Os números contam a história melhor que qualquer press release. O fundo rodava a 439% de retorno até junho, segundo a Financial Times, com ativos sob gestão chegando a US$ 45 bilhões no pico, conforme a CNBC. Depois da correção — e da venda forçada — esse número caiu para algo perto de US$ 10 bilhões, ante os US$ 20 bilhões reportados poucos meses antes pelo WSJ. Isso é destruição de valor em velocidade de queda livre.
Aschenbrenner tem 25 anos, nasceu na Alemanha, formou-se orador da turma em Columbia aos 19 (entrou com 15) e não tinha experiência prévia em trading antes de abrir o fundo em 2024. Passou pelo time de superalinhamento da OpenAI, liderado por Ilya Sutskever e Jan Leike, até ser demitido por suposta divulgação indevida de informação interna. Sutskever fundou sua própria empresa, Leike migrou para a Anthropic, e Aschenbrenner virou gestor.
A tese era simples: escalar IA exige investimento pesado em semicondutores, poder computacional, memória e energia. Bonita no papel, dolorosa na prática quando o mercado público começou a questionar se todo esse capex vira receita no curto prazo. As posições mais castigadas — SK Hynix, Sandisk, Bloom Energy e Nebius Group — caíram mais de 30% no último mês, e a alavancagem fez o estrago render juros.
Em carta aos investidores de 24 de julho, vista pela Financial Times, Aschenbrenner classificou a liquidação como uma das melhores oportunidades de compra desde o início do ano passado e convidou clientes a injetar capital novo a partir de 1º de agosto.
Segundo a Bloomberg, o apelo não converteu o volume de compromissos que ele esperava. Griffin, por sua vez, seguiu o manual clássico da Citadel: comprar ativos de qualidade quando players alavancados precisam se desfazer deles às pressas. O portfólio da Citadel já tinha exposição parecida ao setor, o que sugere aposta na recuperação, não caridade.
O detalhe que interessa de verdade: a Situational Awareness não vendeu as posições privadas. A participação na Anthropic, avaliada em US$ 5 bilhões segundo a Bloomberg, continua intacta — e a Anthropic saiu da rodada Série H em maio valendo US$ 965 bilhões, com IPO esperado já em outubro e possibilidade de valuation ainda maior. Some a isso fatias na fabricante de chips MatX e na startup de data centers Fluidstack, que negociava em abril uma rodada a US$ 18 bilhões.
Ou seja: no papel, o fundo sangrou no mercado líquido, mas pode recuperar boa parte do prejuízo justamente no que não tem preço todo dia — private equity de IA. É o tipo de contabilidade que só fecha bem se a próxima rodada, ou o IPO, confirmar o número. Até lá, é retorno marcado a régua, não a caixa.