Inteligência Artificial

Chef grátis grava cada corte de faca para treinar robôs

· por Rafa Tanaka

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Vou ser sincero: a ideia de trocar um almoço grátis por vídeo das minhas mãos picando cebola parece esquisita, mas é exatamente o negócio da Shift. A startup alemã, ligada à Microagi, manda um chef particular até a sua casa com uma câmera presa no boné. Você ganha a refeição, ela ganha material para treinar robôs a cozinhar.

O repórter da Wired testou o esquema em São Francisco. O chef Ollie chegou com apaventar branca no lugar do chapéu de cozinheiro tradicional: uma câmera do tamanho de uma GoPro, fio até um smartphone que gravava tudo. Gaspacho, salmão assado com molho de abobrinha, tiramisù de sobremesa — e depois ele ainda lavou a louça, porque limpar pia também é dado valioso para um futuro robô doméstico.

Não é só cozinha, é a base de tudo

Isso entra numa onda maior chamada coleta de dados egocêntricos: gravar movimentos das mãos em primeira pessoa para ensinar modelos de IA a fazer tarefas físicas. A Shift já tinha testado o modelo com limpeza gratuita em Nova York antes de expandir para refeições em São Francisco.

O CEO Bercan Kilic descreve o plano em duas partes: deixar pessoas comuns ganharem dinheiro alimentando esses modelos com vídeo, e construir a infraestrutura para uma economia onde robôs fazem o trabalho pesado. Ele fala em abundância futura, mas o que existe hoje é bem mais concreto: gente sendo paga (pouco, segundo relatos) para gravar tarefas do dia a dia.

O sensor filma cada corte, cada movimento — e o objetivo final é treinar humanoides como o 1X Neo a ter destreza de verdade nas mãos.

O que me chama atenção aqui é o quanto isso muda o conceito de gig work. Já vimos gente gravando o próprio rosto e voz para treinar IA generativa. Agora é a vez das mãos, dos gestos, da coordenação motora fina. Empresas de robótica precisam desse tipo de dado porque simular movimento humano realista é muito mais difícil do que treinar um chatbot com texto da internet.

Também acho interessante o incômodo relatado por quem testou: saber que está sendo filmado o tempo todo, mesmo em algo banal como cozinhar em casa, ainda gera aquele desconforto. É a mesma sensação de ver alguém usando óculos com câmera embutida em público.

Vale ficar de olho em como esse mercado de dados físicos vai se organizar. Se cresce como esperado, pode virar um jeito real de ganhar uma renda extra — mas também levanta a pergunta sobre quanto vale, de fato, o seu movimento de mão para treinar o robô que talvez, um dia, tome seu lugar na cozinha.

Fonte: https://www.wired.com/story/i-let-a-private-chef-film-my-kitchen-for-robot-training-data/