Inteligência Artificial

Avós insistem em livros infantis feitos por IA e pais estão exaustos

· por Rafa Tanaka

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Tem uma cena que virou clássico nos grupos de família: a avó chega com um livro personalizado, capa brilhante, nome do neto na primeira página. Só que agora o livro foi feito por IA, com o rosto da criança colocado em cada ilustração, e muita gente nem pediu isso.

É basicamente o que está pegando famílias americanas de surpresa, segundo reportagem da Wired. Plataformas como Imagitime, StoryWonderBook e Childbook.ai vendem histórias infantis sob encomenda: você sobe uma foto do pequeno e a ferramenta gera um enredo com ele como protagonista. Bonito no anúncio, chato na prática.

Um pai no meio-oeste dos EUA contou que os dois filhos já receberam livros assim de parentes. Resultado: depois de uma leitura só, as crianças preferiram voltar pro clássico Little Blue Truck. Segundo ele, os textos gerados por IA são longos, enrolados e sem a graça que prende a atenção de quem tem 3 ou 7 anos.

Outro caso, em Los Angeles: a sogra já mandou quatro desses livros pros netos, incluindo duas versões quase idênticas sobre o Dia das Mães, mudando só a criança em destaque. O pai considera moralmente questionável alimentar essas ferramentas com fotos dos filhos, mas evita levar o assunto pra família.

O incômodo não é só estético. Uma usuária do Reddit relatou ter pedido à própria mãe pra não usar fotos ou dados da filha em IA. Mesmo assim, a avó seguiu criando um livro com personagens parecidos com a neta e usando o primeiro nome da família, na tentativa de fazer a criança se ver representada na história.

Criança não ama um livro só porque o nome dela aparece na capa. Ela ama porque a história é interessante.

Quem estuda o fenômeno de perto é Daozhi Xu, pesquisadora da Macquarie University. Segundo ela, as versões geradas por IA costumam faltar humor, personagens marcantes e tensão dramática, justamente o que faz um livro infantil funcionar de verdade.

O timing não ajuda. Um levantamento da National Assessment of Educational Progress mostrou que cerca de 40% dos alunos do quarto ano nos EUA leem abaixo do nível básico esperado. Some a isso uma pesquisa da HarperCollins com a Nielsen: o número de pais que leem em voz alta pros filhos está no menor nível já registrado, e menos da metade acha esse momento divertido.

O comediante Brandon Kirkman resumiu bem o clima em casa quando os pais dele deram de presente um livro de IA pras filhas: bem-intencionado, mas estranho. O interesse das crianças na história nem chegou perto do que elas sentem por outros livros da estante.

Na prática, o problema não é a tecnologia em si, é o produto final. Gerar uma história personalizada é fácil; fazer ela valer a segunda leitura é outra conversa. Enquanto isso, quem sofre é o pai ou a mãe fingindo entusiasmo na hora de ler, e a criança que já escolheu: prefere o caminhão azul de sempre.

Fonte: https://www.wired.com/story/boomers-cant-stop-gifting-their-grandkids-ai-generated-slop-books/