Inteligência Artificial

Deezer: mais da metade das músicas enviadas por dia já é feita por IA

· por Lia Andrade

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Imagina abrir uma torneira e, com o tempo, notar que mais da metade da água que sai já não vem da fonte original, vem de uma estação de tratamento sintética. É basicamente isso que está acontecendo com o catálogo da Deezer. A plataforma francesa de streaming revelou que, pela primeira vez, mais de 50% das faixas enviadas diariamente ao serviço são geradas por inteligência artificial.

O dado não é um susto isolado, é a continuação de uma curva que a própria empresa vem monitorando desde o início de 2025. E essa curva, para quem gosta de acompanhar números como eu, é impressionante: ela não cresce, ela acelera.

Como chegamos aqui: uma linha do tempo que assusta

  • Janeiro de 2025: cerca de 10 mil faixas por dia, 10% do total de uploads
  • Abril de 2025: 20 mil faixas, 18% do volume diário
  • Setembro de 2025: 30 mil faixas, 28% dos uploads
  • Novembro de 2025: 50 mil faixas, 34% do total
  • Janeiro de 2026: 60 mil faixas, 39% do volume
  • Abril de 2026: 75 mil faixas, 44% dos uploads diários
  • Junho de 2026: pico de 90 mil faixas por dia, média mensal

Em pouco mais de um ano, o volume de música sintética saltou de uma fração pequena para a maioria do que chega na plataforma todos os dias. É como se, numa fábrica que antes produzia uma peça artesanal para cada nove industriais, a proporção tivesse virado ao contrário.

Não é só estatística, é uma questão de dinheiro

O motivo da preocupação da Deezer não é filosófico, é financeiro. Faixas geradas em massa por IA costumam alimentar esquemas de streams fraudulentos, que dividem o bolo de royalties entre menos artistas de carne e osso. Por isso, a empresa anunciou que vai remover faixas sintéticas que não tenham sido tocadas nos últimos seis meses ou que estejam ligadas a streaming fraudulento usado para inflar receita artificialmente.

O CEO Alexis Lanternier resumiu assim: a Deezer já enfrenta fraude e diluição de pagamentos ligadas à música por IA há quase dois anos, e agora que metade dos uploads diários é sintética, a empresa reforça as medidas para proteger direitos de artistas e compositores, mantendo o foco na música que o público realmente ouve.

Cada plataforma joga com regras diferentes

Aqui está o ponto que acho mais curioso: não existe um manual único sendo seguido pelo setor. Cada serviço de streaming criou sua própria régua. O Bandcamp optou pelo caminho mais radical e simplesmente baniu faixas geradas por IA do catálogo. O Tidal foi por outra via, cortando a monetização desse tipo de conteúdo sem removê-lo. Já a Apple Music criou um sistema voluntário de etiquetagem, e o Spotify desenhou sua própria política de transparência sobre o uso de IA na composição.

A Deezer, por sua vez, apostou em detecção técnica desde 2025, quando começou a rotular faixas sintéticas no próprio aplicativo. A tecnologia consegue até identificar produções feitas com modelos como Suno e Udio, duas startups de IA musical que hoje colecionam processos por direitos autorais. No início deste ano, a empresa liberou essa ferramenta de detecção para outras plataformas usarem, embora ainda não esteja claro se algum concorrente grande topou a parceria. No mês passado, foi além e lançou um scanner capaz de varrer playlists do Spotify e da Apple Music em busca de faixas geradas por IA.

O que esse movimento todo sugere é que a indústria fonográfica está tentando construir, às pressas, um sistema imunológico contra o próprio excesso de conteúdo sintético que ela mesma ajudou a viabilizar.

Fonte: https://techcrunch.com/2026/07/21/music-streamer-deezer-says-more-than-50-of-daily-uploads-are-ai-generated/