Imagina um cargo que passa de mão em mão tão rápido que nem dá tempo de decorar onde fica a máquina de café. É mais ou menos isso que está acontecendo com a cadeira de czar de inteligência artificial nos Estados Unidos.
Chris Fall, diretor do Center for AI Standards and Innovation (CAISI), pediu demissão depois de apenas três meses no comando, segundo confirmação da própria agência a diversos veículos de imprensa. Nenhum motivo oficial foi divulgado para a saída.
Fall assumiu a função em abril, logo após seu antecessor, Collin Burns, durar menos de uma semana no posto. Segundo o Washington Post, Burns teria sido praticamente empurrado para a porta por já ter trabalhado na Anthropic, justo quando o governo Trump travava atritos com a empresa. Antes desses dois, quem ocupava a cadeira era o investidor David Sacks, batizado de czar de IA e cripto da Casa Branca, que saiu em março.
Antes do CAISI, Fall dirigiu o Office of Science do Departamento de Energia americano no primeiro governo Trump e foi diretor interino da ARPA-E, agência de projetos avançados de energia. Também passou pelo Office of Naval Research. Um currículo sólido em ciência aplicada, que não resistiu ao vaivém político do cargo.
Um fiscal fora da sala principal
O CAISI opera dentro do NIST e é o órgão responsável por criar padrões técnicos e métodos de teste para modelos de IA, além de avaliar riscos de cibersegurança. Pense nele como o setor de controle de qualidade da indústria de IA americana.
Curiosamente, o CAISI ficou de fora da crise mais recente envolvendo risco de modelos. Em junho, o Departamento de Comércio usou uma diretiva obscura de controle de exportação para forçar a Anthropic a retirar do mercado os modelos Mythos e Fable. A proibição caiu no fim do mês, quando o secretário Howard Lutnick disse estar satisfeito com os planos de segurança da empresa.
No início de julho, a Casa Branca lançou ainda uma ordem executiva criando o programa Gold Eagle, uma central de coordenação de vulnerabilidades de cibersegurança que reúne Comércio e Segurança Interna. O CAISI não apareceu na lista de órgãos envolvidos, como observou a CNBC.
Enquanto isso, Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind, defende a criação de um órgão independente, gerido pela própria indústria, para regular modelos de fronteira nos moldes da FINRA no mercado financeiro. Ou seja: a mesma missão que o CAISI deveria cumprir.
O fantasma chinês na sala
A saída de Fall também vem dias depois do alvoroço causado pela nova versão do Kimi, modelo aberto do laboratório chinês Moonshot, que apresentou desempenho competitivo frente a modelos de fronteira ocidentais. Segundo a Axios, o governo americano avaliaria formas de restringir modelos abertos chineses, o que gerou debate imediato, inclusive críticas do próprio Sacks, que argumentou que regulação não deveria servir de escudo protecionista para laboratórios proprietários dos EUA.
O CAISI já publicou relatórios sobre modelos abertos chineses como o GLM-5.2, da Z.ai, e o DeepSeek V4 Pro, mas pouco explicou sobre como conduz essas avaliações. Desde 9 de julho, o TechCrunch enviou perguntas ao Departamento de Comércio e ao NIST sobre a metodologia de testes de LLMs e, até agora, não recebeu resposta.
Três diretores em menos de um ano dizem menos sobre currículo e mais sobre o quanto ficou instável a cadeira que deveria dar estabilidade regulatória à IA americana.
Fonte: https://techcrunch.com/2026/07/20/trumps-latest-ai-czar-has-already-resigned/